
Sabes !?... Numa ocasião.......
Fim de tarde. Comprazia-se a criação com a abundância. A pardalagem, pintassilgos, chedes e demais passarada miúda bamboleavam-se a gosto nas perneiras do trigo, centeio e aveia a debicar grãos à ganância. As cotovias e chincas, esvoaçando, subiam na perpendicular fazendo negaças à aragem, tombando com perícia logo à frente, onde era ainda mais farta a mesa.
A codorniz soltava de quando em vez a sua curta solfa. Paspalhaz ... paspalhaz ... paspalhaz.
Por charcos, poças e agueiras, rãs e raielas, executavam, intrépida cantata em bemol.
No caminho, logo a seguir à rodeira do lameiro, impante seguia o sapo. No seu passeio de vésperas. Concho. Soberbo como senhor feudal montado em égua alazã. Imponente que nem o rei da criação. Como se fora o mais guapo dos viventes. Assentando a pata da frente, como se registasse em proveito próprio o vale inteiro. Logo com a pata traseira se assenhoreava do mundo. Como o cavalo de Átila pisava, a grama, milhã e carrejoilos e tudo quanto era humilde erva rasteira. Qual besta jurássica, derrubava incomodado o joio, pimpilrros, junquilhos, margaças e outras ervas de maior porte, quando não rebentos e guiotas de freixo e de carvalho. Distraído, arrotando grandezas, marchava pela rodeira dos carros como general prussiano passando revista às tropas em parada. Sobranceiro, mais do que lho consentia o tamanho e agilidade, nem baixava os olhos para a bicharada minúscula que à sua passagem se movia com destreza, com menos receio de lhe servir de iguaria, do que ser fulminada com o olhar. Bem ouvia de quando em vez comentários em surdina, ... que soberbo! Parece o dono do vale! Quanta proa sem razão!
Fazia ouvidos surdos à vozearia da arraia-miúda e continuava a sua marcha, galharda e balofa. Não lhe ficaria mal, à laia de empresário bem sucedido, que abundam também entre a bicharada, grosso havano nos beiços. Mas desconhecia ainda o vício torpe dos humanos.
Tão entretido na sua caminhada de fim de tarde, tão arrogante do seu volume e modos, que não deu conta do carro de feno que aí vinha.
Dois corpulentos bois, quase arrastando as meleias pelo chão, músculos retesados, puxavam a majestosa carrada de feno.
Der repente, passavam-lhe por cima, encobrindo a luz já difusa do entardecer, os volumosos corpos dos bovinos. Assustou-se, e, num gesto instintivo, moveu o pesado corpo sem saber muito bem em que direcção. Apavorado, tentou galgar em inusitado movimento, no afã de se esconder, as ervas mais altas do meio da rodeira. Desastrado, mais pesado que a empáfia, menos lesto que a soberba, voltou-se sobre si, e, sem ponto de apoio, deixou-se rolar, entregando-se aturdido à sorte. Ainda não tinha adquirido a posição normal e descia já sobre si a pata traseira de um dos bovinos. Num esforço derradeiro evitou apenas que o canelo do animal o apanhasse em cheio. Mas, os estragos foram de monta. Parte das tripas estava ao leu. Ainda sem alcançar toda a gravidade das mazelas, aturdido pela chiadeira e tropel de rodas e patas, e já o rodado lhe esfacelava um jarrete. Descomposto, sem forças, perdera o visco da pele que era agora massa informe, de sangue, pó e feno. Afastou-se a junta e a carrada, perdiam-se já na canelha. Sentiu tudo em brasa à sua volta, tresouviu o dies irae. Acorreu toda a criação em redor. Formigas hesitantes, mosquitos intrigados, saltões que se afastaram com a chiadeira do carro, moscas aturdidas pelas vergastadas do rabo dos bovinos, toda a raça e espécie de bichos que, consoante a sua natureza e destino, àquela hora enxameavam o vale, se aproximou para verificar presencialmente o sucedido. Mas, fosse em razão do pouco entendimento, fosse por via da soberba do sinistrado, vieram pelo inusitado que não por franciscano sentimento.
- Parecia o dono do mundo! dizia-se em surdina.
- Sumiu-se-lhe a arrogância!
E alguém, entre admiração sincera e mal disfarçado regozijo, exclamou com afoiteza:
- Leva as tripas de fora!
Doeu-se. Fez um derradeiro esforço o sinistrado. Tentou adquirir uma posição mais consoante o seu estatuto. Ardia-lhe o corpo todo. Susteve as pálpebras que teimavam em fechar-se. Humedeceu ainda a boca e língua com saliva inventada. Embalado ainda de alguma proa, julgou-se composto. Pigarreou numa tentativa falhada de impor ordem e respeito. E, com voz tão firme quanto lho consentia o fim próximo, disse com toda a altanaria:
- Não são as tripas! São as correntes do relógio!
Riu a bicharada, afastou-se aos gritos cotovia, praguejou, de tal descaradez, a cincha. Os pintassilgos e chedes, ladinos e folgazões, foram-se para seus termos e arvores. Ele arrastou-se, concho, num ensejo vão de esconder os pordentros e o fim até à carvalheira próxima, que, condoída, o acobertou. Aos despojos e à empáfia. Agonizante, mas concho.
- São as correntes do relógio – repetiu, já só para si.
In memoriam
José Manuel Azevedo.
Um abraço
f.ribeiro
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Numa ocasião.......
terça-feira, 1 de julho de 2008
Torneio de Jogos Tradicionais - 2
Realizou-se no dia 29 de Junho, em Brunhoso, o Torneio de Jogos Tradicionais que incluiu a Relha, o Fito, a Raiola e um Circuito, para os mais jovens. A organização pertenceu à Câmara Municipal, à Rede Social do Município de Mogadouro e à Junta de Freguesia de Brunhoso.
Jogo da Relha - Brunhoso, 29 de Junho de 2008
Jogo do Fito (fite) - Brunhoso, 29 de Junho de 2008
Circuito de Jogos Tradicionais (dos 6 aos 16 anos) - Brunhoso, 29 de Junho de 2008
Lanche convívio - Brunhoso, 29 de Junho de 2008
Ler a "reportagem" completa na página de Brunhoso, aqui.
domingo, 29 de junho de 2008
Torneio de Jogos Tradicionais - 1
Cheguei há poucos instantes de Brunhoso. Mais uma vez testemunhei uma tarde de boa disposição que foi o Torneio de Jogos Tradicionais.
Deixo, para já, uma painel com fotografias com caras bem conhecidas. O nosso amigo António Magalhães, apaixonado pelos enigmas, pode decifrar este, procurando as moedas no ar.
Amanhã há mais...
sexta-feira, 20 de junho de 2008
sábado, 31 de maio de 2008
segunda-feira, 12 de maio de 2008
As primaveras da Primavera

Só descendo ao nível do solo podemos observar toda a beleza da Primavera.
quarta-feira, 7 de maio de 2008
terça-feira, 15 de abril de 2008
sexta-feira, 11 de abril de 2008
domingo, 30 de março de 2008
Jacinto - Dipcadi serotinum
Nos meus passeios por Brunhoso por altura da Páscoa dediquei bastante atenção a alguns exemplares da Flora local. Uma das plantas que mais me chamou à atenção é esta que apresento hoje.
Trata-se de uma planta conhecida como Jacinto-da-tarde, de nome científico Dipcadi serotinum (L.) Medik. Foi a primeira vez que reparei nesta planta, mas descobri agora que ela até é bastante frequente, em Portugal e no resto da Europa (mais na região mediterrânica). A sua classificação botânica completa é complicada, mas talvez seja interessante dizer que pertence à Subclasse das Liliaceae que têm outros bonitos exemplares como a Gilbardeira (Ruscus aculeatus), conhecida por baleio, de que se faziam os bassouros p'ra esflujar (tirar a fuligem) das chaminés. Embora as plantas não tenham muita semelhança, se observarmos as pequenas flores que crescem na página inferior das folhas, onde depois se formam os bonitos frutos vermelhos, o caso muda de figura.
Já havia alguns jacintos floridos à volta da Fraga do Poio, mas a grande maioria ainda está para florir. A época de floração é Abril a Junho (segundo os livros).
Como quase todas as plantas da Família Liliaceae, têm um pequeno bolbo que lhe permite sobreviver "cravada" nas rochas quase sem terra nenhuma.
sexta-feira, 28 de março de 2008
quarta-feira, 26 de março de 2008
Flor da Erva-besteira
No dia 20 de Março voltei à ladeira de Brunhoso. Entre outras coisas, tinha em mente procurar de novo a planta que tinha fotografado há alguns meses atrás. Como se encontram perto do caminho, não foi difícil encontra-las. Esta planta, chamada Erva-besteira (Helleborus foetidus), tinha ainda algumas flores que como se pode ver na fotografia são verdes. Quem tiver curiosidade pode encontrá-las por baixo do Poio, junto ao caminho onde atravessa o ribeiro.





