sexta-feira, 11 de julho de 2008

Numa ocasião.......


Sabes !?... Numa ocasião.......

Fim de tarde. Comprazia-se a criação com a abundância. A pardalagem, pintassilgos, chedes e demais passarada miúda bamboleavam-se a gosto nas perneiras do trigo, centeio e aveia a debicar grãos à ganância. As cotovias e chincas, esvoaçando, subiam na perpendicular fazendo negaças à aragem, tombando com perícia logo à frente, onde era ainda mais farta a mesa.
A codorniz soltava de quando em vez a sua curta solfa. Paspalhaz ... paspalhaz ... paspalhaz.
Por charcos, poças e agueiras, rãs e raielas, executavam, intrépida cantata em bemol.
No caminho, logo a seguir à rodeira do lameiro, impante seguia o sapo. No seu passeio de vésperas. Concho. Soberbo como senhor feudal montado em égua alazã. Imponente que nem o rei da criação. Como se fora o mais guapo dos viventes. Assentando a pata da frente, como se registasse em proveito próprio o vale inteiro. Logo com a pata traseira se assenhoreava do mundo. Como o cavalo de Átila pisava, a grama, milhã e carrejoilos e tudo quanto era humilde erva rasteira. Qual besta jurássica, derrubava incomodado o joio, pimpilrros, junquilhos, margaças e outras ervas de maior porte, quando não rebentos e guiotas de freixo e de carvalho. Distraído, arrotando grandezas, marchava pela rodeira dos carros como general prussiano passando revista às tropas em parada. Sobranceiro, mais do que lho consentia o tamanho e agilidade, nem baixava os olhos para a bicharada minúscula que à sua passagem se movia com destreza, com menos receio de lhe servir de iguaria, do que ser fulminada com o olhar. Bem ouvia de quando em vez comentários em surdina, ... que soberbo! Parece o dono do vale! Quanta proa sem razão!
Fazia ouvidos surdos à vozearia da arraia-miúda e continuava a sua marcha, galharda e balofa. Não lhe ficaria mal, à laia de empresário bem sucedido, que abundam também entre a bicharada, grosso havano nos beiços. Mas desconhecia ainda o vício torpe dos humanos.
Tão entretido na sua caminhada de fim de tarde, tão arrogante do seu volume e modos, que não deu conta do carro de feno que aí vinha.
Dois corpulentos bois, quase arrastando as meleias pelo chão, músculos retesados, puxavam a majestosa carrada de feno.
Der repente, passavam-lhe por cima, encobrindo a luz já difusa do entardecer, os volumosos corpos dos bovinos. Assustou-se, e, num gesto instintivo, moveu o pesado corpo sem saber muito bem em que direcção. Apavorado, tentou galgar em inusitado movimento, no afã de se esconder, as ervas mais altas do meio da rodeira. Desastrado, mais pesado que a empáfia, menos lesto que a soberba, voltou-se sobre si, e, sem ponto de apoio, deixou-se rolar, entregando-se aturdido à sorte. Ainda não tinha adquirido a posição normal e descia já sobre si a pata traseira de um dos bovinos. Num esforço derradeiro evitou apenas que o canelo do animal o apanhasse em cheio. Mas, os estragos foram de monta. Parte das tripas estava ao leu. Ainda sem alcançar toda a gravidade das mazelas, aturdido pela chiadeira e tropel de rodas e patas, e já o rodado lhe esfacelava um jarrete. Descomposto, sem forças, perdera o visco da pele que era agora massa informe, de sangue, pó e feno. Afastou-se a junta e a carrada, perdiam-se já na canelha. Sentiu tudo em brasa à sua volta, tresouviu o dies irae. Acorreu toda a criação em redor. Formigas hesitantes, mosquitos intrigados, saltões que se afastaram com a chiadeira do carro, moscas aturdidas pelas vergastadas do rabo dos bovinos, toda a raça e espécie de bichos que, consoante a sua natureza e destino, àquela hora enxameavam o vale, se aproximou para verificar presencialmente o sucedido. Mas, fosse em razão do pouco entendimento, fosse por via da soberba do sinistrado, vieram pelo inusitado que não por franciscano sentimento.
- Parecia o dono do mundo! dizia-se em surdina.
- Sumiu-se-lhe a arrogância!
E alguém, entre admiração sincera e mal disfarçado regozijo, exclamou com afoiteza:
- Leva as tripas de fora!
Doeu-se. Fez um derradeiro esforço o sinistrado. Tentou adquirir uma posição mais consoante o seu estatuto. Ardia-lhe o corpo todo. Susteve as pálpebras que teimavam em fechar-se. Humedeceu ainda a boca e língua com saliva inventada. Embalado ainda de alguma proa, julgou-se composto. Pigarreou numa tentativa falhada de impor ordem e respeito. E, com voz tão firme quanto lho consentia o fim próximo, disse com toda a altanaria:
- Não são as tripas! São as correntes do relógio!
Riu a bicharada, afastou-se aos gritos cotovia, praguejou, de tal descaradez, a cincha. Os pintassilgos e chedes, ladinos e folgazões, foram-se para seus termos e arvores. Ele arrastou-se, concho, num ensejo vão de esconder os pordentros e o fim até à carvalheira próxima, que, condoída, o acobertou. Aos despojos e à empáfia. Agonizante, mas concho.
- São as correntes do relógio – repetiu, já só para si.

In memoriam
José Manuel Azevedo.

Um abraço
f.ribeiro

1 comentário:

Esmeralda disse...

Olá
Simplesmente delicioso....
Abraço
Esmeralda